O cancro do pulmão não tira férias. E por este andar os oncologistas também
não…


Em Portugal, o cancro do pulmão é o terceiro tumor mais incidente em mulheres (1902 novos casos por ano) e homens (4253 novos casos por ano). Quando falamos de mortalidade, o cancro do pulmão passa a liderar as contagens. Todos os anos morrem aproximadamente 4400 pessoas devido a tumores da traqueia, brônquios e pulmões.
São números preocupantes.
O tratamento do cancro do pulmão tem sofrido uma revolução. Há 10 anos os doentes metastizados (com lesões em outros órgãos) viviam cerca de 6 meses, neste momento temos doentes a viver 10 anos com qualidade de vida. Mas para quê chegar a este ponto? Para quê manterem-se doentes?

Vamos trabalhar no antes. Vamos trabalhar na prevenção. Vamos trabalhar no estilo de vida. Vamos trabalhar na epigenética (forma como fatores ambientais e a experiências de vida altera o funcionamento dos genes).
Não existe atualmente um programa de rastreio para cancro do pulmão, embora estejam já identificados alguns fatores de risco que podem contribuir para o aparecimento de um cancro do pulmão: o tabaco, o radão (gás resultante do decaimento dos solos e rochas), os fumos e gases ocupacionais, a radiação, os
asbestos (amianto). Mas depois todos nós conhecemos aquela pessoa que fumou a vida toda e nunca teve nenhum cancro. Como isto pode ser? Parece que tem de haver mais alguma coisa…
Os sintomas por vezes são muitos subtis, podendo atrasar o diagnóstico. Uma tosse irritativa, uma expetoração que não passa, um cansaço de novo, uma perda de peso. E temos sempre uma desculpa: deve ser das poeiras que andam no ar, tenho andado constipado, tenho trabalhado mais, tenho comido pior. Tudo tem explicação, e o tempo vai passando. Até que a expetoração começa a vir com sangue. Bem, se calhar é melhor ir ao médico. Ora, e agora o centro de saúde só me consegue uma consulta
daqui a 3 meses… E o tempo vai passando. Quando finalmente o doente consegue fazer uma TAC (tomografia computorizada) já a situação está muito avançada.
A diferença entre um diagnóstico atempado e um diagnóstico tardio é entre uma cirurgia vs tratamento sistémico por tempo indeterminado. Para o doente, a diferença é entre a cura ou manter-se doente. Para o sistema de saúde a diferença é exorbitante.
Os custos associados aos novos tratamentos para o cancro do pulmão são muito avultados. Então não trabalhar no antes? Por que não trabalhar na prevenção?
No estilo de vida? Na epigenética?
Vamos então começar:

(1) alimentação: façam uma refeição de forma pacata e sossegada. Não façam a refeição em frente ao computador. Podem ser só 15 minutos, mas são 15 minutos dedicados a si e à sua alimentação. Todas as refeições têm de ter um verde. Legumes/salada + proteína + hidrato. Não adianta comer só uma saladinha, passadas 2 horas estão com fome. Juntem uma proteína saudável (2 ovos, peito de
peru, uma lata de atum). Se é difícil fazer isto na cantina, levem de casa. Está na moda
ter marmita.

(2) exercício físico: comecem com pouca atividade e vão subindo.
Alternem cardiovascular com muscular. Num dia uma caminhada rápida de 20 minutos,
no dia seguinte agachamentos e flexões. Vejam vídeos na ‘internet’ para se inspirarem.
O exercício físico é viciante, se começarem vão-se sentir tão bem que nunca mais o
vão largar. Mas é preciso dar o primeiro passo. Não usem o elevador. Estacionem mais
longe que o habitual.

(3) higiene do sono: temos de dormir, e cada corpo é diferente.
Algumas pessoas só precisam de 6 horas, mas outras precisam de 9h. Conheçam o
vosso corpo. Tentem ir dormir sempre a mesma hora. Se tem dificuldade em adormecer
comprem um livro bem aborrecido. O nosso corpo demora cerca de 30 minutos a entrar
em estado de sono, por isso não se irritem se ao fim de 10 minutos na cama ainda
estão acordados. Calma, deixem-se ficar, aproveitem só para descansar.

(4) emoções:
quantas vezes não estamos bem, mas não sabemos bem o que estamos a sentir, só
sabemos que não estamos bem. Na verdade, já nem sabemos sentir. Andamos em
piloto automático. Temos de tirar tempo para verbalizar as nossas emoções. Falem
com o vosso espírito nas viagens de carro, ou no banho ou nas caminhadas. Permitam-
se chorar. Permitam-se.

(5) as coisas que nos fazem feliz: diga-me uma coisa que o
faça mesmo feliz? Dançar em casa? Fazer um ‘puzzle’? Pôr o pé na areia? Beber um
café naquele sítio específico? Pois bem, todas as semanas tem de arranjar tempo para
fazer uma coisa que verdadeiramente o deixa feliz. O mundo pode esperar. Aquele
momento é seu.

(6) redução do “stress”: o ‘stress’ mata. O cortisol sempre elevado, o corpo sempre em modo de combate. Isso mata e deixa-nos velhos. Reduzam o ‘stress’ ao mínimo. Se não se fizer hoje, amanhã também é dia. Se o problema é o emprego, trabalhem menos. Não precisamos de tantos bens materiais para viver. Nunca chega, se temos a televisão X queremos a Y; queremos que os miúdos tenham 10 atividades;
queremos ir de férias para o sítio que ouvimos falar; queremos o telefone de última geração. E, por que não só sermos felizes?
A vida é tão simples, e nós teimamos em complicá-la. Escrevam as coisas maravilhosas que têm na vossa vida e olhem para elas todos os dias. Sejam gratos todos os dias. Sejam felizes.

Dra. Filipa Macedo
Oncologista

Ilustração Freepick

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